Entrevista | Samantha Mainine

Samantha Mainine.

Paulista radicada Brasília, Samantha Mainine, 33, é cantora de música popular brasileira. Aos 16 anos, ingressou no curso de Composição e Regência na UNESP e, mais tarde, Canto Lírico. Começou cantando MPB em bares e eventos e, na universidade, atuou em grupos semi-profissionais de música erudita, cantando em corais e grupos de ópera.

Camila Ayouch – De onde surgiu seu interesse pela música?

Samantha Mainine – Desde muito criança. Comecei a fazer aulas de piano aos 6 anos de idade e de lá para cá nunca parei de estudar música.

CA – Como sua formação em canto lírico se manifesta nas suas criações?

SM – Ela se manifesta muito mais na parte de intérprete, com certeza. É quase impossível não trazer à tona a técnica por tanto tempo estudada. Enquanto compositora, acho que procuro pensar muito no que é orgânico de se cantar, e isso vem do fato de ser cantora lírica. Sempre discuti com meus colegas a questão de quando um compositor, seja erudito ou popular, sabe escrever para voz. Na música popular brasileira há muitos compositores maravilhosos, mas para mim, quem melhor escreve para voz é o Caetano Veloso.

CA – Como é o seu processo de composição?

SM – Eu, particularmente, gosto muito de ficar em silêncio, reclusa; de vez em quando faço alguns rituais, peço ajuda às entidades que andam comigo. Uma vez fiquei no mais completo silêncio por quase três dias para escrever uma canção. Eu preciso muito disso para escrever. Os temas são variados, mas tenho falado muito de amor ultimamente. Gosto muito também quando recebo encomendas, não muito amarradas, mas com alguma direção.

CA – Quais são suas referências?

SM – Eu não cresci em uma família de músicos, mas sim de pessoas que amam música. Fui a shows e tive acesso a um acervo bastante rico. Ouvia um pouco de tudo, mas sempre optei mais pela MPB. Eu tinha A Arca de Noé, do Vinícius de Moraes com o Toquinho, e ouvia muito.

Ouvia muito também Alceu Valença, quando tinha uns quatro anos. Aos 10, eu lembro de ficar deitada no chão da sala por horas (talvez nem fossem horas, criança mede o tempo diferente) ouvindo Maria Bethânia, e depois eu mudava para Milton Nascimento ou Chico Buarque. Mas sempre voltava para ela (risos).

Na adolescência explorei muito o universo do pop-rock nacional; a música erudita também esteve presente. Adoro Mozart e Debussy, mas para cantar é Puccini e Carlos Gomes. Além dessas referências musicais, sempre fui militante de esquerda, me aproximando posteriormente do feminismo interseccional, de maneira que essa militância tem bastante influência na minha escolha de repertório e, em menor medida, nas minhas composições.

CA – Como você avalia o cenário musical atual?

SM – Olha, vou falar do Brasil, porque não presto a menor atenção na música de fora. Eu acredito que um problema grande que temos enfrentado é a questão da falta de patrocínio. As gravadoras são muito menos poderosas do que antigamente, por conta do acesso à internet – o que eu acho excelente -, mas também existe uma enorme desvalorização do músico.

Sobre cantores e compositores, vou falar do meu estilo, que é a MPB e é do que eu entendo: acho que tem muita gente nova boa, mas ninguém que me tire o ar como Bethânia me tira, ninguém que me faça chorar feito criança como Lô Borges, ninguém que me faria feliz se fosse o único compositor que eu pudesse ouvir para o resto da vida, como o Paulinho da Viola. Acho que falta uma direção, mas isso se encontra com o tempo.

Conheço pouco dos outros estilos. O samba continua sempre uma delícia; o sertanejo eu não gosto muito, preferia os mais antigos, mas é questão de gosto. Gosto de saber que existem mulheres empoderadas em todos os estilos… Isso eu adoro. Mas confesso que continuo ouvindo gente que tem mais de 50 mesmo.

CA – Qual música sua você mais se orgulha? Por quê?

SM – Tem uma canção que escrevi chamada Para você escutar. Gosto muito, muito dela. Foi essa que fiquei em silêncio um tempão antes de escrever, e depois escrevi em silêncio também. É a coisa mais bonita que já saiu de mim.

CA – Indique algo para nossos leitores.

SM – Cara, acho que todo mundo deveria escutar os seguintes álbuns da MPB, que para mim são fundamentais:

  1. O Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges)
  2. Meus Caros Amigos (Chico Buarque)
  3. Acabou Chorare (Novos Baianos)
  4. Ciclo (Maria Bethânia)
  5. Por onde andará Stephen Fry? (Zeca Baleiro)
  6. Estratosférica (Gal Costa)

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Samantha Mainine? Dá uma olhada nos links abaixo.

Facebook Page: https://www.facebook.com/SamanthaMainineCantora/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/sazinha13

Contato para shows: samanthamainine@gmail.com | (061) 99654-6762 | (011) 99977-7463

4 artistas independentes para ouvir em 2017

 

Elephant Run (São Paulo, SP)

Formada em 2015, a banda é um encontro entre Brasil e Suécia. Amanda Grus, uma jovem cantora e pianista de Malmö, uniu-se com o guitarrista Fernando Coelho e o baterista Ladislau Kardos. Logo depois a banda cresceu com a chegada de Renato Cortez e Ismael Sendeski. Gravaram o primeiro disco ainda sem nome a ser lançado em 2016. Essa mistura nórdica e tropical, com pitadas de música clássica, progressivo, trip hop e jazz cria uma sonoridade atmosférica e letras existenciais.

Camila Ayouch — Quais são as referências da banda?

Elephant Run — Queen, Pink Floyd, Zappa.

CA — Como vocês avaliam o cenário musical atual?

ER — Enfraquecido de casas de médio porte.

CA— Quais as implicações de ser um artista independente no Brasil?

ER — Não ter uma cena alternativa forte.

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Link do EP: https://elephantrun.bandcamp.com/album/elephant-run

Estranjero (Francisco Beltrão, PR)

A banda surgiu há aproximadamente 2 anos e era um duo de vocal, guitarra e bateria. Com o tempo, alguns amigos passaram a frequentar os ensaios e acabaram por entrar para a banda, que hoje é composta por 5 integrantes: Samoel Pitz (Vocal), Marco A. Fagundes (guitarra), Ewerton Perotoni Redivo (Guitarra), Victor Baronio (Baixo) e Mike Vargas (Bateria).

Após o lançamento de alguns singles, que fazem parte de um projeto maior com 4 EP’s, a banda conseguiu reconhecimento e visibilidade regional. Agora pretendem expandir para mercados maiores, atingindo cada vez mais pessoas com a intenção de criar um som questionador.

CA— Quais são as referências da banda?

ESTRANJERO — Geralmente buscamos inspiração do som da vida cotidiana, amor, conquistas, guerras, perdas, etc. Também de filmes, seriados, livros e com certeza de toda a história da música feita até hoje, variando entre música clássica, rock, pop, nem wave, metal, progressivo, punk e todos os estilos que compõe o grande mundo musical, porque afinal, música não tem uma explicação lógica, música é sempre música, e poder tocar as pessoas com ela é uma grande dádiva.

CA— Como vocês avaliam o cenário musical atual?

ESTRANJERO — Procuramos estudar o máximo possível do mercado, algumas questões de tendências e oportunidades. Nunca se viu tanta plataforma e forma de se crescer no cenário, mas também nunca se viu uma quantidade tão grande de pessoas nesse meio. O que nos deixa felizes é a questão de termos uma certa consistência musical, acreditamos no nosso trabalho, e procuramos focar nisso para almejar coisas cada vez maiores. Temos a convicção das dificuldades e benefícios que o mundo atual proporciona, mas queremos entrar no mercado com nosso som consolidado; não procurar criar algo para apenas crescer e sumir, mas criar uma cultura de amor e lealdade com a banda, que possamos oferecer muito a quem acreditar no nosso trabalho.

CA — Quais as implicações de ser um artista independente no Brasil?

ESTRANJERO — Acreditamos que ser artista independente pode ter algum ônus para uma facilidade de crescimento a curto prazo, mas com um trabalho consistente e verdadeiro acreditamos que se pode chegar longe, consolidar o trabalho e seguir bem no mercado. Um bônus de ser artista independente é ter a liberdade de produzir e expressar as suas verdades de uma forma mais livre, algo que pode dar a uma obra algo de mais humano e verdadeiro, como acho que todos somos em vários aspectos de nossas vidas.

CA— Afinal, o que é “Estranjero”?

ESTRANJERO — O nome da banda é algo um tanto quanto confuso para algumas pessoas. Ele significa estranho, vindo de outro lugar, não conhecido. Isso reflete uma parte do nosso trabalho; somos do mundo e o mundo faz parte de nós, mas também somos únicos e viemos para tentar mostrar isso, como um forasteiro, um turista, um estrangeiro.

O nome é escrito dessa forma por seu significado, mas também por não correr na linguagem convencional do português, para deixar claro que não se trata de uma coisa direcionada a apenas um seguimento linguístico.

Se bem observadas, nossas artes refletem um pouco disso também. Você pode notar que tem algo de natural misturado a algo muito lúdico ou talvez entendido de forma incomum, mas essa é a nossa essência.

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Link para o EP: https://soundcloud.com/estranjero

 

LaCruz (São Paulo, SP)

LaCruz é um projeto solo do vocalista homônimo. Eles, que já participou de grupos como LCMD e Veneta, agora dá um novo rumo à sua carreira na música.

CA— Quais são suas referências?

LC — Expressão Ativa, Racionais MCs, Eminem, Chico Buarque, Djavan, Cartola.

CA— Como você avalia o cenário musical atual?

LC — Nosso cenário musical é extremamente rico; temos diversos grupos e artistas espalhados pelo país inteiro. O grande problema está no apoio que estes artistas (não) recebem e a questão da distribuição.

CA — Quais as implicações de ser um artista independente no Brasil?

LC — Ah, principalmente falta de apoio. Casas famosas sendo fechadas, preferência exclusiva por artistas internacionais ou artistas nacionais já consolidados.

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Astronautas do Caribe (Francisco Beltrão, PR)

A ideia da banda Astronautas do Caribe surgiu em 2004 com o vocalista Marco Fagundes (também Estranjero) que, com suas primeiras composições, idealizou a banda e os temas que seriam abordados. Em 2014 a banda se formou e se manteve com os mesmos integrantes até hoje.

CA — Quais são as referências da banda?

AC — The Beatles, Rolling Stones e Joe Cocker.

CA— Como vocês avaliam o cenário musical atual?

AC — Muito fraco para o nosso gênero, principalmente na questão financeira. Parece que quanto menos letra e harmonia uma música tiver, melhor ela fica para o público.

CA— Quais as implicações de ser um artista independente no Brasil?

AC — Implica em muito trabalho e forca de vontade, já que fica muito mais difícil ter uma agenda boa de shows e de gravar o material autoral.

CA — O que esperar do próximo EP?

AC — A banda lançou seu primeiro EP em outubro de 2016, gravado em Home Studio e agora estamos produzindo o segundo EP, que será gravado da mesma forma, com exceção da bateria, que será gravada em estúdio profissional.

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Link para o EP: https://www.youtube.com/watch?v=2R4mN0GJxCU&list=PLizZBihFENAYxbT_iVqhmXdKYvjovX0zE

 

Entrevista | Sharks’ Teeth

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Sharks’s Teeth é uma banda de New Orleans composta por Tyler Scurlock, Devin Hildebrand, Shelby Grosz e Emily Hafner. Lançado em setembro deste ano, o álbum It Transfers & Grows é um mergulho cósmico.

Confira abaixo a entrevista eu fiz com a banda!

Camila Ayouch – O que cada um faz na banda?

Tyler Scurlock – Eu escrevo as bases e as letras para a maioria das canções. Eu canto nas músicas e nos shows ao vivo, onde eu toco basicamente o módulo DSI Mopho & Roland JP-08.

Emily Hafner – Eu faço um pouco de tudo. Eu toco baixo, lead line, ou faço algum um pouco de som ambiente dependendo da música. Eu e o Devin normalmente alternamos entre o Novation MiniNova e o Korg MS-2000.

Shelby Grosz – Eu normalmente faço a estrutura harmônica das músicas, como as progressões de acordes, com vários acentos em frases, usando a varredura do poly-synth da Yamaha SK-20.

Devin Hildebrand – Eu faço os elementos de percussão para os shows ao vivo e nos discos. Quando tocarmos ao vivo, eu uso o Korg MS2000b para qualquer coisa, desde arpejos a ondas, e o vocoder no Mininova.

CA- Como vocês se conheceram?

TS – Quando eu era calouro na Universidade de Loyola, fui designado para o dormitório ao lado do quarto do Devin. Eu o convenci/forcei a tocar um solo de guitarra, embora ele continuasse dizendo que era mais um baterista [do que um guitarrista] na música que eu estava gravando.

Eu conheci o Shelby através de um amigo mútuo na música, em um show em Lafayette. Depois de tocar em bandas periféricas por anos e ver o quanto Shelby poderia destruir no teclado, não tivemos escolha senão convidá-lo para participar.

Emily e eu nos conhecemos na faculdade também. Há alguns anos atrás, no fim da noite em uma Casa de Natal, nós ligamos os sintetizadores e Emily se juntou ao Shelby para liderar o coro bêbado através das canções de Natal mais espaçadas que eu já ouvi.

CA – Há quanto tempo vocês estão na estrada?

TS – O Sharks’ Teeth não faz tours frequentemente. Às vezes nós viajamos durante uma semana ou tocamos em alguns festivais regionais. O Shelby está em uma banda chamada Trampoline, que faz tours prolificamente, e a Emily vai se juntar a um belo projeto de Nova Orleans chamado Treadles, que fará sua primeira turnê em janeiro deste ano.

CA- De onde surgiu o nome da banda?

TS – Sharks’ Teeth vem de um poema homônimo de Kay Ryan.

CA- Como vocês descreveriam o tipo de música do Sharks’ Teeth para quem nunca ouviu?

TS – Minha descrição favorita, que eu ouvi recentemente, é “pop orgânico mutante”. Algo como um monte de almofadas etéreas, cordas e varreduras sobre batidas sedutoras de dança, cobertas por letras tristes. Embora tenhamos usado sintetizadores, módulos de sintetizador e drum machines exclusivamente para o nosso último álbum, as músicas seguem um formato pop familiar, apenas de muito longe.

Leia também – Sharks’ Teeth e o synthpop mutante.

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CA- Quais são suas referências musicais?

TS – John Maus, Oppenheimer Analysis, New Order, Yo La Tengo, Bjork.

SG – Devo, Human League, Kate Bush, Gary Numan, Angelo Badalamenti.

EH – Elliott Smith, Grouper, Cocteau Twins, Sufjan Stevens, Ryuichi Sakamoto.

DH – Tobacco, Black Moth Super Rainbow, Fennesz, Talking Heads.

CA- Como surgiu seu interesse pela música?

TS – Eu comecei a tocar música na escola primária e desde então foi a maneira mais divertida, fascinante e gratificante de passar o tempo.

EH – Eu comecei a tocar piano clássico quando eu tinha 5 anos de idade. Continuei com as aulas até a faculdade antes de ficar um pouco cansada dele. Ao longo do caminho, eu aprendi peças em outros gêneros por diversão e foi o que manteve a centelha viva. Eu ainda gosto de tocar música clássica de vez em quando, mas também gostei de me divertir nessas ramificações de um estilo tão restritivo de aprender e tocar música.

CA- Como é o processo de composição?

TS – Normalmente eu trago uma fundação de acordes, batidas e letras para o grupo. Devin vai então inventar algo com sua magia digital e que se transformará na nova base de percussão.

Todo mundo dá sugestões de como a canção poderia ser melhor ou como lidar com transições, e as novas partes vão sendo escritas em conjunto.

Por último, a Emily e o Shelby adicionam suas partes ao conteúdo, já que eles são os únicos que têm ideia do que está acontecendo. Então eles voltam e gravamos tudo juntos.

CA- Vocês parecem ser muito bem humorados. Em sua página oficial no Facebook, cada integrante tem um nome divertido. Vocês poderiam comentar isso, por favor?

TS – A reprodução mecânica de cada conta no Facebook, pessoal ou musical, é uma coisa estranha. Eu sinto que nas mídias sociais, algo criado para nos tornar mais homogêneos, você pode subverter isso com a arte e se divertir mais com elas. Enquanto, eventualmente e esperançosamente, de alguma forma, mostre a outras pessoas que elas também podem fazer o que quiserem.

CA- O que é “Christmas in Space” (“Natal no Espaço”)?

TS – Por volta de 2010, eu fiz um show num pequeno bar usando uma guitarra curvada, sobre alguns sintetizadores de ambiente, mas com o coro soando como loops de fita. O local tinha algumas luz de Natal espalhadas por todo o palco. Entre os sons e a decoração, a única maneira de descrever seria “Natal no espaço”. Desde então, essa atmosfera tem influenciado o tipo de acordes ou tons nós tocamos.

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CA – Vocês lançaram 16 álbuns nos últimos 7 anos, de diferentes tamanhos e até mesmo estilo. De onde vem tanta criatividade?

TS – A criatividade vem de estar próximo a tantas pessoas criativas fazendo tanta música incrível, como aqui em Nova Orleans. A quantidade tem mais a ver com a falta de filtro. Muito do que o Sharks’ Teeth lançou nos últimos 7 anos não tem qualquer padrão profissional ou foi analisado o que teria sido melhor fazer.

Eu tinha o equipamento para fazer a música e um lugar para colocar (BandCamp), então fazer o upload regularmente e manter a produção era fácil, ainda mais com projetos pequenos e não muito pensados.

Entre escrever, ensaiar, reescrever, gravar, divulgar e distribuir, It Transfers & Grows foi um projeto que nós trabalhamos por cerca de 2 anos. O resultado é algo mais polido, mas não teria sido possível sem todo esse tempo e colaboração.

Os anos em que o Sharks’ Teeth estava lançando um álbum ou EP por mês foi quando eu estava pulando basicamente todos os passos que fazem It Transfers & Grows o que ele é.

CA- O álbum It Transfers & Grows parece mais maduro artisticamente em relação aos outros. Como foi o processo de criação do disco?

TS – Isto se relaciona diretamente com a última pergunta sobre a prolificidade. A maioria do catálogo antigo foi gravado essencialmente por mim. Quando começamos a gravar It Transfers & Grows, o Sharks’ Teeth vinha se apresentando junto com os quatro integrantes. A cada ensaio ou show, cada membro foi desenvolvendo o que eventualmente acabaria sendo o disco.

A Emily e o Shelby são ambos talentosos e capazes nos sintetizadores. Quando chegou a hora de gravar, eles contribuíram com alguns dos momentos mais memoráveis do disco. Devin foi responsável pela gravação, mixagem e masterização do álbum inteiro e suas habilidades loucas são o que torna o registro tão coeso.

CA – Quais são as expectativas para este álbum?

TS – Quando estávamos trabalhando nisso, eu acho que minhas expectativas eram de que as pessoas compartilhassem a afinidade pela música física e que os equipamentos fossem atraídos para isso.

Agora que o disco já foi lançado faz algum tempo, eu estou surpreso. Nunca achei que fosse estar tão orgulhoso de algo em que eu trabalhei por tanto tempo.

Durante a maior parte da minha vida eu tenho me desapontado cronicamente com projetos, mas trabalhando no ITAG, colaborando com os novos membros para ensaiar para shows que ainda estamos tocando… Eu estou muito feliz de estar continuamente orgulhoso do trabalho que todos nós colocamos neste disco e que realmente foi além das minhas expectativas.

CA- Vocês já vieram ao Brasil?

TS – Nós nunca estivemos no Brasil, mas ADORARÍAMOS ir.

CA- Indique algo para os nossos leitores.

TS – O livro do Walker Percy,”Lost in the Cosmos”,  foi uma grande influência na criação de It Transfers & Grows; e também é muito engraçado.

EH: Se você estiver procurando por alguma arte inspiradora, dê uma olhada em Yuko Shimizu (não o da Hello Kitty; o outro)! Ela é uma ilustradora japonesa baseada em Nova York, e todo seu trabalho é imaginativo e bonito. Ela faz trabalha muito com tinta e escova, e sua arte combina influências tradicionais e modernas sem problemas.

Curtiu a entrevista do Sharks’ Teeth? Clique aqui para ouvir o som deles.

Entre Serviço e Simpatia, com Castello Branco

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Para tentar desvendar um pouco desse ser de intensidade quixotesca, entrevistei o cantor, compositor e escritor Castello Branco.

Camila Ayouch – Muitas pessoas te conhecem da R.Sigma. Como foi a transição de um projeto coletivo para um disco solo?

Castello Branco – O processo coletivo nunca saiu de mim. Sou um ser do coletivo. Mesmo quando trago para o pessoal, como acontece com o projeto solo, ainda sim não deixo faltar o coletivo nas coisas.

CA- Um de seus poemas no livro Simpatia diz: “sem atrito não há lapidação”. Quais foram as intempéries que você teve que enfrentar para se estabelecer como artista?

CB – Nossa (risos)! São muitos os traumas que ainda vivo e atritos que tive. Não seria capaz de formatá-los em texto. O que posso dizer é que existem dois tipos de confronto, o externo, onde outros lhe trazem o atrito, e o interno, onde você é quem “tatua” a si mesmo. Ambos são positivos, quando a motivação é honesta enquanto amorosa.

Leia também – Simpatia, de Castello Branco.

CA – Você cresceu em um monastério ecumênico. Como isso influencia sua conduta enquanto artista e seu processo criativo?

CB – Não consigo criar algo sem pensar nos outros. Isso não quer dizer que seja bom.

CA – Quais são as suas referências literárias e musicais?

CB – Meus amigos e alguns seres gigantes que fui encontrando no caminho. Posso citar alguns como Pãma, Trigueirinho, Lôu Caldeira, André Dahmer, Ana Lomelino, Gabriel Bittencourt, Eduarda Bittencourt, Tomás Tróia, Rafaela Cardeal e por aí vai…

CA – “Permitir é um gesto sagrado”. Comente este poema, por favor.

CB – O ato de permitir é uma das coisas mais poderosas que podemos manifestar.

CA – Recentemente você completou 30 anos. O que a idade te trouxe como presente?

CB – Saber viver mais esse presente.

CA- Indique algo para os nossos leitores.

CB – Feijão, por cima uma camadinha de farinha, depois alguns fios de azeite e por último umas pitadinhas de sal. FICA UMA DELÍCIA!

Sharks’ Teeth e o synthpop mutante

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Créditos da foto: Benjamin Davis.

Sharks’s Teeth é uma banda de New Orleans composta por Tyler Scurlock, Devin Hildebrand, Shelby Grosz e Emily Hafner. Lançado em setembro deste ano, o álbum It Transfers & Grows é um mergulho cósmico. As dez canções fluem como cintilações do tempo, intensamente despertas e abertas à sinestesia.

A atmosfera é de um corpo sem órgãos, tomado por formas brilhantes e resquícios de melancolia. Abraçam-se os sintetizadores como ruídos da alma, os únicos capazes de materializar a inerência entre vitalidade e desolação.

 

O clipe de Lost In The Cosmos, uma das faixas mais notórias do álbum, faz jus à natureza nostálgica da canção. O festim de imagens, criado pelo diretor Derek Beck,  reúne cor, memória e restauração em intensidade. Em entrevista ao site Post-Trash, Beck compartilhou seu processo criativo:

No início do verão, eu fui atingido por um carro em minha moto e sofri uma separação no ombro esquerdo, que exigiria cirurgia para corrigir. Em meu primeiro mês de recuperação, comecei a trabalhar neste vídeo para passar o tempo. Comecei experimentando com tintas à óleo pastéis e fotografia stop-motion. Encontrei um efeito único ao empurrar o pigmento pastel ao redor de fotografias antigas e gravar o movimento quadro a quadro. O resultado final é uma mídia stop-motion fundindo cronicamente os últimos cinco anos de minha vida através da fotografia. (tradução livre)

Ora denso, ora rarefeito, o synthpop mutante de Sharks’ Teeth transita entre a contemporaneidade e a transcendência. As texturas e camadas de sons nos fazem possuir mentalmente o sonho. It Transfers & Grows é o estado ininteligível entre abatimento e vontade de dançar. Que a saudade do desconhecido nos permita continuar dançando.