Entrevista | Samantha Mainine

Samantha Mainine.

Paulista radicada Brasília, Samantha Mainine, 33, é cantora de música popular brasileira. Aos 16 anos, ingressou no curso de Composição e Regência na UNESP e, mais tarde, Canto Lírico. Começou cantando MPB em bares e eventos e, na universidade, atuou em grupos semi-profissionais de música erudita, cantando em corais e grupos de ópera.

Camila Ayouch – De onde surgiu seu interesse pela música?

Samantha Mainine – Desde muito criança. Comecei a fazer aulas de piano aos 6 anos de idade e de lá para cá nunca parei de estudar música.

CA – Como sua formação em canto lírico se manifesta nas suas criações?

SM – Ela se manifesta muito mais na parte de intérprete, com certeza. É quase impossível não trazer à tona a técnica por tanto tempo estudada. Enquanto compositora, acho que procuro pensar muito no que é orgânico de se cantar, e isso vem do fato de ser cantora lírica. Sempre discuti com meus colegas a questão de quando um compositor, seja erudito ou popular, sabe escrever para voz. Na música popular brasileira há muitos compositores maravilhosos, mas para mim, quem melhor escreve para voz é o Caetano Veloso.

CA – Como é o seu processo de composição?

SM – Eu, particularmente, gosto muito de ficar em silêncio, reclusa; de vez em quando faço alguns rituais, peço ajuda às entidades que andam comigo. Uma vez fiquei no mais completo silêncio por quase três dias para escrever uma canção. Eu preciso muito disso para escrever. Os temas são variados, mas tenho falado muito de amor ultimamente. Gosto muito também quando recebo encomendas, não muito amarradas, mas com alguma direção.

CA – Quais são suas referências?

SM – Eu não cresci em uma família de músicos, mas sim de pessoas que amam música. Fui a shows e tive acesso a um acervo bastante rico. Ouvia um pouco de tudo, mas sempre optei mais pela MPB. Eu tinha A Arca de Noé, do Vinícius de Moraes com o Toquinho, e ouvia muito.

Ouvia muito também Alceu Valença, quando tinha uns quatro anos. Aos 10, eu lembro de ficar deitada no chão da sala por horas (talvez nem fossem horas, criança mede o tempo diferente) ouvindo Maria Bethânia, e depois eu mudava para Milton Nascimento ou Chico Buarque. Mas sempre voltava para ela (risos).

Na adolescência explorei muito o universo do pop-rock nacional; a música erudita também esteve presente. Adoro Mozart e Debussy, mas para cantar é Puccini e Carlos Gomes. Além dessas referências musicais, sempre fui militante de esquerda, me aproximando posteriormente do feminismo interseccional, de maneira que essa militância tem bastante influência na minha escolha de repertório e, em menor medida, nas minhas composições.

CA – Como você avalia o cenário musical atual?

SM – Olha, vou falar do Brasil, porque não presto a menor atenção na música de fora. Eu acredito que um problema grande que temos enfrentado é a questão da falta de patrocínio. As gravadoras são muito menos poderosas do que antigamente, por conta do acesso à internet – o que eu acho excelente -, mas também existe uma enorme desvalorização do músico.

Sobre cantores e compositores, vou falar do meu estilo, que é a MPB e é do que eu entendo: acho que tem muita gente nova boa, mas ninguém que me tire o ar como Bethânia me tira, ninguém que me faça chorar feito criança como Lô Borges, ninguém que me faria feliz se fosse o único compositor que eu pudesse ouvir para o resto da vida, como o Paulinho da Viola. Acho que falta uma direção, mas isso se encontra com o tempo.

Conheço pouco dos outros estilos. O samba continua sempre uma delícia; o sertanejo eu não gosto muito, preferia os mais antigos, mas é questão de gosto. Gosto de saber que existem mulheres empoderadas em todos os estilos… Isso eu adoro. Mas confesso que continuo ouvindo gente que tem mais de 50 mesmo.

CA – Qual música sua você mais se orgulha? Por quê?

SM – Tem uma canção que escrevi chamada Para você escutar. Gosto muito, muito dela. Foi essa que fiquei em silêncio um tempão antes de escrever, e depois escrevi em silêncio também. É a coisa mais bonita que já saiu de mim.

CA – Indique algo para nossos leitores.

SM – Cara, acho que todo mundo deveria escutar os seguintes álbuns da MPB, que para mim são fundamentais:

  1. O Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges)
  2. Meus Caros Amigos (Chico Buarque)
  3. Acabou Chorare (Novos Baianos)
  4. Ciclo (Maria Bethânia)
  5. Por onde andará Stephen Fry? (Zeca Baleiro)
  6. Estratosférica (Gal Costa)

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Samantha Mainine? Dá uma olhada nos links abaixo.

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Entrevista | Ju Choma

Ju Choma.

A cenografia abrange todos os elementos responsáveis por criar uma determinada atmosfera em uma apresentação: as luzes, os sons, a disposição dos elementos… Quando em harmonia, são capazes de suscitar emoções das mais diversas e cativar o público.

No entanto, a cenografia é frequentemente privada dos holofotes. Em busca de valorizar essa forma de arte, a nossa colunista Camila Ayouch entrevistou a cenógrafa curitibana Ju Choma, 28, uma força a ser reconhecida na área. Confira o bate-papo abaixo!

Camila Ayouch – Quando e por que você optou por Arquitetura?

Juliana Choma – Eu sempre fui uma pessoa bem indecisa. Eu gosto de muitas coisas e às vezes isso é um problema quando a gente tem que se decidir. No início eu queria fazer Cinema, mas na época não existia graduação nessa área aqui em Curitiba, então não era uma opção.

Cheguei à Arquitetura porque meus pais são engenheiros civis e desde pequena eu convivi com a construção, me identificando de alguma forma. Ao mesmo tempo, eu queria algo mais artístico e, nesse sentido, a Engenharia me parecia um pouco fria – cursei um ano antes de migrar para a Arquitetura. Cheguei a cogitar Design, mas a Arquitetura pareceu um bom jeito de unir o artístico ao funcional.

CA – Como foi a transição para a cenografia?

JC – Quando cheguei à conclusão de que queria Arquitetura, já me imaginava trabalhando com paisagismo ou arquitetura de interiores, e tinha deixado de lado a ideia do audiovisual. Eu não imaginava que um arquiteto poderia ser cenógrafo, porque infelizmente pouco se fala de cenografia, mas tudo mudou no meu primeiro ano de faculdade.

Em uma aula de Introdução à Arquitetura, com o professor Antônio Castelnou Neto, ele disse que um dos ramos da Arquitetura é a Cenografia. A partir daí, fiquei pensando que eu poderia, sim, voltar a pensar no audiovisual e em outras vertentes.

Nos anos seguintes, fiquei dividida entre seguir carreira no Paisagismo ou na Cenografia. Assisti a muitas palestras, fiz vários workshops e me inscrevi na disciplina de Cenografia do curso de Produção Cênica. Afinal, para seguir em uma área que não é tão convencional a gente tem que se informar bem, não é?

Show “Minhas Digitais”, de Luciane Merlin. (Cenografia: Ju Choma | Foto: Uriel Marques)

No último ano da faculdade, eu trabalhava em um escritório de Paisagismo, mas as coisas não iam como eu imaginava. Quando saí de lá, minha chefe me forneceu o contato de dois ou três diretores de cinema, e me incentivou a mandar e-mail para eles. Sinceramente, não achei que fossem me chamar, eu não tinha experiência alguma.

Mas o Alessandro Yamada – que também é arquiteto – estava para começar a rodar um filme, e sua diretora de arte, Suzana Aragão, precisava de ajuda. Fui chamada logo para começar um longa-metragem, e amei a experiência! Agradeço muito a oportunidade que os dois me deram nesse início, porque se isso não tivesse acontecido talvez eu estivesse hoje fechada em um escritório de Arquitetura.

Depois disso foi estudar bastante. Fiz a Especialização em Cenografia da UTFPR, e muitos cursos em áreas diferentes, como iluminação, carpintaria e eventos, porque acho que o cenógrafo tem que ter uma visão muito ampla de tudo que envolve a Cenografia.

CA – Qual é a sua identidade como cenógrafa?

JC – No começo, eu queria ter alguma coisa que pudesse falar: “isso sou eu”. Parece que existe até uma exigência de que o artista tenha uma identidade que o torne único, mas depois a gente aprende que não importa muito qual é a sua assinatura, desde que o cliente fique satisfeito com o seu trabalho.

Não sei se posso chamar isso de identidade, mas procuro fazer com que cada projeto traduza o íntimo dos meus clientes. Isso faz com que os meus projetos sejam bem diferentes: posso fazer um cenário muito rústico, ou então bem minimalista; um cenário delicado, e outro completamente confuso. E não me importo muito se vão identificar que é meu ou não. Se isso traduz o cliente, se ele está feliz, eu também estou.

Talvez eu tenha algo só meu, mas não sei dizer. Me dedico muito a cada cliente, procuro entender como é a sua personalidade e traduzo isso em formas. Me disseram esses dias que o meu diferencial é que eu mesma produzo meus cenários, coloco a mão na massa. Pode ser isso, mas não sei.

Show Fran Rosas: Brilhante – Especial Elis Regina. (Cenografia: Ju Choma | Fotografia: Fabio Palombino)

CA – Quais são suas referências estéticas?

JC – Dizem que o primeiro arquiteto que você estuda na faculdade vira sua referência para a vida. Não sei se isso se aplica a todos os estudantes, mas estudei o Frank Lloyd Wright no primeiro ano e ainda hoje ele é meu arquiteto favorito. Talvez tenha sido com ele que aprendi que cada obra é destinada a seu cliente, e que você pode ter vários estilos diferentes. Como movimentos artísticos, gosto muito do minimalismo e da land art.

CA – Como você avalia a relação da cenografia com cada projeto?

JC – Vejo muita relação entre a Arquitetura e Cenografia. No fundo, o objetivo é o mesmo, o que muda é a escala e o tempo de existência da obra. Você vai querer fazer algo artístico, que cause impacto, mas ao mesmo tempo não pode deixar de ser funcional e servir ao seu propósito. A gente estuda, na Arquitetura, a tríade vitruviana: um projeto tem que ser funcional, bem estruturado e causar comoção. É isso que a gente busca na Cenografia também.

Festival Gastronômico Mia Cara Curitiba. (Cenografia: Ju Choma | Fotografia: Daniel Sorrentino)

CA – Como nasce um projeto cenográfico?

JC – Eu crio meus projetos de cenografia com a mesma metodologia que usava já na arquitetura. Primeiro tenho uma conversa inicial com o cliente, para entender o que ele precisa – geralmente, ele me dá aspectos mais funcionais e, vez ou outra, algum elemento estético que gostaria.

Depois, procuro entender como é a personalidade dele: no caso de cantores, por exemplo, procuro seus vídeos e ouço o máximo de músicas gravadas que ele tem, além de ir a ensaios, para compreender seu estilo.

Pergunto se existe uma atmosfera que ele gostaria de passar em seu show, e se ele não souber, o ensaio me ajuda a entender isso também. A partir disso, é pesquisar referências (sempre mostrando ao cliente para ver se estamos pensando da mesma forma) e desenhar muito para oferecer várias opções para ele.

CA –  Em seu portfólio vemos que você trabalha com vários artistas locais. Como fazer mais com menos?

JC – Eu gosto de trabalhar com os artistas locais, porque isso fortalece a classe e precisamos incentivar pessoas que são como nós, não é? Mas a gente tem que levar em consideração que, na maioria das vezes, são artistas em começo de carreira e não têm orçamento.

É um trabalho de colaboração: encontrar amigos que emprestem móveis, lojas que façam parcerias, reformar partes de algum cenário que eu tenha sobrando para usar no show… No final é muito gratificante ver que tudo dá certo, mesmo com o orçamento apertado. Não recuso esse tipo de trabalho, porque se a gente quer crescer temos que ajudar os outros a crescerem também.

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Festival Gastronomix. (Cenografia: Ju Choma)

CA – Qual é o projeto que você mais se orgulha? Por quê?

JC – A cada época eu tenho o meu favorito. Atualmente tenho dois que me orgulho de ter feito: o primeiro é a cenografia para o Gastronomix (2016), que é a feira gastronômica do Festival de Teatro de Curitiba. Fiquei muito feliz de ter feito e foi incrível como as pessoas gostaram do projeto. Planejei alguns elementos interativos, mas não esperava que as crianças fossem aproveitar tanto. No fim, elas até inventaram interação onde eu não esperava, e esse é o aspecto que mais gosto na cenografia: a reação a ela ser imprevisível.

O segundo trabalho que gostaria de citar é o show do Ravi Brasileiro, no Teatro Paiol, em que assinei a direção de arte. Foi um desses projetos com um artista local, de baixo orçamento, mas que deu muito certo: conseguimos algumas parcerias, muita coisa foi feita por nós mesmos, e o resultado foi um show lindo.

(Show Ravi Brasileiro: Cortinas Abertas (Cenografia: Ju Choma | Foto: Brasileiro Produções

CA – Você tem alguma dica para quem quer trabalhar com cenografia?

JC – Não se preocupe tanto em estudar a cenografia em si. Estude história do teatro; estude cinema. Teoria da cor, da forma. Estude luz; materiais. No final, a cenografia é composta de tudo isso. E quanto mais a gente estuda cada elemento separadamente, mais fácil é criar os cenários.

CA – Indique algo para nossos leitores.

JC – Um filme: O Grande Hotel Budapeste.
Um artista: Bruce Munro.
Uma cenografia: a de Daniela Thomas para Avenida Dropsie (2005).
Um lugar: Jardim Botânico de São Paulo.

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Ju Choma? Dá uma olhada nos links abaixo.

Site: www.juchoma.com

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Entrevista | Erika de Faria

Créditos da imagem: Felipe Rufino.

Erika de Faria é uma fotógrafa paulistana dotada de uma enorme sensibilidade estética. Confira a entrevista abaixo!

Camila Ayouch – Por que fotografia?

Erika de Faria – A fotografia para mim é só mais uma linguagem possível. Ela veio como mais uma forma de me expressar por meio das imagens, luz, cores, locações etc.

CA– Como você começou na fotografia?

EF – Letras foi minha formação. Meu sonho na adolescência era ser escritora, era mostrar para o mundo todas minhas transformações, dúvidas, desesperos e paixões. Queria ser Ana Cristina, Clarice Lispector ou Hilda Hilst. Mas como em qualquer boa faculdade, [isso] matou minha criatividade para sempre.

Travei, não escrevia mais, achava tudo sem sentido e que eu não tinha talento para nada, apesar de ter muita coisa para expressar. Juntei dinheiro trabalhando como vendedora na época, para viver um tempo na Espanha, para ver se alguma luz surgia. Lá descobri a fotografia, fotografando viagens, mas de forma diferente, eu contava a história das ruas, conseguia inventar personalidade para os personagens das imagens e isso foi inspirador e voltei renovada para o Brasil.

Após um tempo decidi largar tudo e fotografar como profissão. Hoje fotografo moda, retrato e publicidade e além disso ministro workshops e cursos. Como sempre gostei e estudei várias formas de arte, essa bagagem toda me acompanha sempre na fotografia. Gosto de me inspirar no cinema, nas músicas da Gal Costa, Caetano e Milton Nascimento.

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Fotografia: Erika de Faria.

 

CA – Qual é seu estilo de fotografia?

EF – É difícil definir um estilo, mas acho que minhas imagens são banhadas de sol, sentimentos, brasilidade e delicadeza. É assim que enxergo a vida e é assim que me exponho por meio do meu trabalho. Claro que nos trabalhos comerciais nem sempre consigo colocar o que amo, mas acredito que sempre existem elementos meus ali, por mais que se tenha um briefing perfeito.

CA – Quais são suas referências na fotografia?

EF – Minhas referências na fotografia sempre foram as mesmas, desde o início. A primeira é a fotógrafa Lina Sheynius, que fotografa a intimidade dela e consegue fotografar moda da mesma forma, que é encantadora. Amo o Ryan Mcginley, que sempre teve um trabalho autoral e depois de ficar muito famoso, começou a ser convidado para fotografar publicidade de forma extremamente artística e inspiradora. E um fotógrafo brasileiro que é muito incrível na moda e que admiro muito, é o Zee Nunes. Além de fotógrafos, me inspiro muito em pintores como Schiele e Balthus, amo a delicadeza e o erotismo de suas pinturas.

As Bahias e a Cozinha Mineira em campanha para a Avon | Fotografia: Erika de Faria.

CA – Quais os desafios de ser uma fotógrafa mulher?

EF – Os desafios de ser mulher no universo da fotografia são inúmeros. Acho que os principais são o machismo e a insegurança que nos colocam nesse universo. Acredito que por sempre ter sido um mercado extremamente masculino, a presença das mulheres incomoda, sempre acham que a mulher não vai dar conta, que não sabe coordenar uma equipe, acham que nos imprevistos a mulher vai surtar ou chorar ou que a mulher não deve saber tanto de técnica como outros fotógrafos homens, já escutei muitas vezes esses tipos de comentários, tantos em trabalhos como em cursos de cinema e fotografia.

Já presenciei professores falando isso em aula sobre o porquê não gosta de trabalhar com mulheres, imagina só a minha cara ao ouvir esse tipo de comentário. Acho que a importância da atuação feminina na fotografia é essencial.

Nós mulheres precisamos ocupar os espaços, precisamos ter destaque em todas as profissões, mas acredito que especialmente na fotografia – que além de ser a minha área, é uma área machista -, que sempre duvidou de nós mulheres e precisamos mostrar o quanto somos capazes, talentosas, que nosso olhar é sensível, principalmente quando falamos em retratar outras mulheres, já que a mulher sempre foi retratada por homens, por olhares machistas, sexualizando os corpos e a imagem do feminino, não estou radicalizando, óbvio, mas temos uma quantidade enorme disso.

Por conta do mercado, as mulheres se sentem acuadas e com muita insegurança no mercado, por isso precisamos nos unir, chamar outras manas para trabalhar, apoiar e compartilhar conhecimento com outras manas, já que conhecimento é sinônimo de empoderamento também. A fotografia é imagem, a imagem emociona, e também pode ser informativa, representativa, inspiradora e também triste, má e segregadora. Por isso, nós profissionais da imagem temos a obrigação de passar o nosso melhor para essas imagens.

Nós fotógrafas mulheres temos que ao menos tentar quebrar essas barreiras, tanto da profissão como das imagens machistas que sempre fizeram da mulher. Temos que tratar a imagem da mulher com carinho e com dignidade. A imagem também muda o mundo, ela inspira pessoas, ela também pode iluminar e trazer sentido à vida de outras pessoas.

Modelo: Lenny Nunes | Fotografia: Erika de Faria

CA – Qual equipamento você usa para fotografar?

EF – A câmera que uso é a Canon 6D com a lente 24-105mm; para trabalhos pessoais uso a FujiFilm. Quando preciso de outras lentes eu alugo e flashs também sempre alugo Profoto.

CA – Você já teve alguma publicação de destaque ou recebeu algum prêmio?

EF – Já tive publicações na capa e ensaios na Revista TRIP, tive capa e editoriais de moda na Revista Pais e Filhos, na cia aérea Easy Jet.

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Erika de Faria? Dá uma olhada nos links abaixo.

Portfólio: www.erikadefaria.com

Instagram: @erikadefariaa

Tumblr: http://erikavisualdiary.tumblr.com

Facebook Page: https://www.facebook.com/erika.defaria

Freak Market: https://freakmarket.com.br/curador/erika-e-leandro

Podcast para o Papo de Fotógrafo: http://www.papodefotografo.com.br/2016/12/feminino-moda-publicidade/

Entrevista | Coletivo Amuela

Baseado em São Paulo, o Coletivo Amuela é um coletivo cultural, artístico e educativo, que de forma plural e provocativa, tem como interesse comum a democratização dessas bandeiras.

Camila Ayouch — Qual é a proposta do Coletivo Amuela?

Coletivo Amuela — Somos estudantes das manifestações artísticas em relação à condição humana, a partir disso e de acordo com nossas tendências questionadoras, desenvolvemos projetos que misturam linguagens artísticas e abordagens conceituais.

Ayouch — Qual é o significado do nome “Amuela”?

CA — O nome “Amuela” surgiu de uma brincadeira interna do coletivo que tem a ver com a moela da galinha. Porém ao pesquisar o significado da palavra, descobrimos que a mesma, em espanhol, tem o sentido de amolar (tanto as facas, quanto as pessoas), algo parecido com o “apoquentar” do nosso português.

Ayouch — Quem compõe o coletivo?

CA — Somos uma grande mistura de vertentes artísticas. Somos professores de arte, artistas plásticos, curadores e produtores culturais, além de termos nossas parcelas vindas da arquitetura, do jornalismo e do Design.

Ayouch — Quais são as atividades desenvolvidas pelo coletivo?

CA — O coletivo atua, principalmente, na área da arte-educação. Atuamos com residências artísticas (como a primeira temporada do projeto “ Arte Educação- Tradição e Ruptura”, que resultou em uma exposição que esteve presente na Galeria Mario Schenberg, na Funarte nos meses de junho e julho de 2016), exposições, palestras, rodas de discussões e oficinas.

Ayouch — Quais os desafios que vocês já enfrentaram ou enfrentam?

CA — Nosso maior desafio até agora tem sido a falta de apoio, e não é um problema só nosso, e sim da grande maioria dos coletivos que existem na cena artística atual. Nossa caminhada é longa e cheia de obstáculos, sempre. Cabe a nós manter o foco e estarmos sempre abertos a novas integrações, troca de ideias e assim manter nosso nome na cena.

As dificuldades existem, principalmente no que diz respeito à falta de apoio e às dificuldades de se manter, por exemplo, cursos completamente gratuitos. A falta de um espaço próprio também nos afeta, embora estejamos com apoio da Funarte e da representação regional do MinC-SP, que nos cede as instalações para os cursos, residências artísticas e exposições.

O coletivo, que até meados de outubro se chamava “Amigos do MinC” (fizemos um manifesto chamado “Tiranossauros em mutação”, que explica os motivos para a mudança do nome) ganhou destaque em um momento em que a Funarte e o MinC corriam o risco de serem extintos pelo governo interino, então as atividades promovidas pelo Amuela ajudaram a manter o espaço em movimento, juntamente com as atividades propostas pelo pessoal dos movimentos sociais que ocupavam as instalações Minc/Funarte na mesma época.

Ayouch — Em janeiro deste ano vocês irão realizar o evento “PROVOCA+AÇÕES”. Conte-nos um pouco mais.

CA — Em janeiro estaremos com algumas rodas de conversa acontecendo dentro das instalações da Funarte/MinC de São Paulo. O evento chama-se“PROVOCA+AÇÕES”, e os encontros acontecerão em 4 semanas consecutivas durante o mês de janeiro e início de fevereiro de 2017, sendo que a cada semana haverá um eixo temático específico.

O nosso principal objetivo neste evento é articular ação e reflexão sobre as artes visuais e seus desdobramentos no contexto cultural do Brasil contemporâneo. Por ter um formato mais dinâmico, teremos dois debatedores e um moderador discutindo questões centrais para a arte contemporânea, como a relação com o espaço público, os embates com o campo étnico, ambiental, social, filosófico e político.

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Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1327081197313208

Inscrições para o evento*:

EIXO 1: https://goo.gl/forms/VzqrXCkXp9YSCi602
EIXO 2: https://goo.gl/forms/VzqrXCkXp9YSCi602

*os links de inscrição para os outros dois eixos serão divulgados em breve.

Coletivo Amuela

Facebook Page: https://www.facebook.com/coletivoamuela

Email: coletivo.amuela@gmail.com

Entrevista | Ana Schirpa e Caroline Moraes

O post de hoje é um bate-papo com duas fotógrafas paulistas, Ana Schirpa e Caroline Moraes, sobre o trabalho de cada uma delas e os desafios de ser mulher nessa indústria.

ANA SCHIRPA

Ana Schirpa (Créditos da imagem: Tauanna Borazo Maia)
Ana Schirpa (Créditos da imagem: Tauanna Borazo Maia)

A paulista de 25 anos é estudante de marketing e se autodescreve como capricorniana teimosa. Morou dois anos na Irlanda e agora, de volta ao Brasil, divide seu tempo entre lecionar aulas de inglês e a fotografia.

Camila Ayouch – Por que fotografia?

Ana Schirpa – A fotografia permite que mostremos para as pessoas como vemos o mundo, permite traduzir a beleza que enxergamos nas coisas, nas pessoas, ou em uma determinada situação… É a mágica do momento, onde é só você e sua câmera e o resultado só depende de você. Um clique pode mudar tudo.

CA– Como você começou na fotografia?

AS – Desde pequena eu saía fotografando as coisas, mas nunca levei muito a sério. Acabei mergulhando de cabeça nesse mundo quando voltei de um intercâmbio e a readaptação estava sendo difícil. A fotografia me ajudou muito, conheci pessoas incríveis, mulheres maravilhosas e empoderadas que posaram para mim; poucas, mas boas pessoas querendo me ajudar, e trabalhos que me orgulho muito de ter feito parte.

CA – Qual é seu estilo de fotografia?

AS – Gosto muito de fotografar a beleza feminina e a sua sensualidade. Acho o corpo feminino lindo e é maravilhoso entregar um trabalho em que a pessoa fale “nossa, eu não me via linda desse jeito”. É gratificante. Mas, como fotógrafa, procuro ser flexível, então busco aprimorar meu olhar em diversas situações. Carrego minha câmera comigo sempre que possível e saio clicando. Alguns resultados eu publico, outros guardo pra mim…

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Créditos da Imagem: Ana Schirpa.

CA – Quais são suas referências na fotografia?

AS – Tenho algumas referências, tanto masculinas quanto femininas, nacionais e estrangeiras… As minhas principais inspirações são: Mayara Rios, Felipe Watanabe, Gab Dias, Luana Patricio, Andrew Kearns, Thais Marin. Sigo também vários perfis de projetos bacanas, como o Eu mesma, Eu livre.

CA – Quais os desafios de ser uma fotógrafa mulher?

AS – Acredito que para o estilo de foto que eu gosto de tirar, ser mulher acaba sendo um facilitador. Algumas meninas se sentem mais a vontade em tirar a roupa na frente das lentes de um estranho quando quem está por trás dela é uma mulher. Mas acho que existem desafios sim, às vezes é difícil ser levada a sério, ou algum cara se acha no direito de ultrapassar alguns limites e acaba faltando com respeito.

CA – Qual equipamento você usa para fotografar?

AS – Uso uma Canon T5 e as minhas lentes.

CA – Você já teve alguma publicação de destaque ou recebeu algum prêmio?

AS – Eu fiz umas fotos para a Cavalera duas vezes. Em uma delas tive a oportunidade de fotografar o Luringa e seu filho. Acho que foi uma das vezes que mais fiquei nervosa, mas deu tudo certo no final (risos). Também tive a chance de dividir um ensaio com um dos fotógrafos que tenho como referência, e foi uma oportunidade massa para conseguir aprender mais.

Luringa e seu filho Nick. (Créditos da Imagem: Ana Schirpa)
Luringa e seu filho Nick. (Créditos da Imagem: Ana Schirpa)

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Ana Schirpa? Dá uma olhada nos links abaixo.

Portfólio: Ana Schirpa Fotografia

Instagram@anaschirpa.fotografia

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CAROLINE MORAES

Caroline Moraes

Ao se situar na intersecção entre palavra e imagem, a paulista de 33 anos constrói narrativas visuais dotadas de poesia, forma e potência.

CA – Por que fotografia?

CM – Foi uma paixão, bem daquele jeito clichê. Comecei a fotografar e a entender o que era isso de produzir imagens e fiquei apaixonada pelas possibilidades, pela emoção, pela delicadeza mesmo nas cenas mais duras. Sempre gostei de contar histórias, acho que a fotografia virou mais um jeito de poder fazer isso. É por essa linha narrativa que pretendo seguir.

CA – Como você começou na fotografia?

CM – Me formei em Publicidade em 2004 e, com 21 anos de idade, caí no mercado como redatora meio sem saber de nada da vida, das coisas corporativas e tal. Passei por agências, empresas e uma grande editora. Aos 28 anos, estava chateada com meu trabalho; não via relevância naquilo. Fui estudar fotografia em busca de um hobby, uma coisa para mudar de assunto.

Fiz um curso de férias e adorei. Fui atrás de outro curso, um pouco mais teórico. Seis meses depois, eu estava completamente apaixonada e resolvi buscar uma formação como fotógrafa. Enquanto estudei na Panamericana, mantive meu trabalho como redatora, que pagava bem as contas.

Depois de um ano  naquela vida dupla, entre textos e fotos, saí da editora e resolvi abraçar a vida de fotógrafa. Desde de 2013 sou fotógrafa profissional, apesar de ainda escrever e gostar muito. Hoje, busco maneiras de juntar essas duas linguagens sempre que posso.

Créditos da imagem: Caroline Moraes.
Créditos da imagem: Caroline Moraes.

Já fiz uma pós graduação de fotografia pensando em narrativas e pretendo entrar em um mestrado. Tenho algumas pesquisas artísticas que mixam as duas linguagens e comecei a entender que não existe isso de imagens dispensarem palavras ou vice-versa.

As coisas podem se complementar, existe uma potência linda ao juntar texto e fotografia, que foge da clássica ilustração, que pode abrir muitos horizontes, pensamentos e possibilidades.

No mundo prático, sou fotógrafa de eventos corporativos, de produtos (still) e faço outras coisas quando acho interessante, me identifico, acredito. Uma das minhas principais determinações quando mudei de carreira foi de só trabalhar com o que faz sentido pra mim. Tem dado certo.

CA – Qual é seu estilo de fotografia?

CM – Gosto da capacidade que a fotografia tem de mostrar a beleza das coisas, da natureza das pessoas. Em eventos, corporativos ou não, gosto muito de explorar uma linguagem mais jornalística, de testemunha oculta, sem muitas poses ou coisas armadas. Amo fotografar teatro e dança justamente por poder explorar o que as luzes e os corpos oferecem de possibilidades. Nas minhas pesquisas voltadas para as poéticas acho que junto tudo isso, procuro o que me toca, o que faz sentido para o meu olhar. Fotografar é muito subjetivo pra mim.

Créditos da imagem: Caroline Moraes
Créditos da imagem: Caroline Moraes

CA – Quais são suas referências na fotografia?

CM – Sou apaixonada pelo trabalho da Rinko Kawauchi, japonesa e contemporânea, que produz livros lindos. Há algum tempo tenho interesse nos fotolivros, nas narrativas visuais. A Francesca Woodman me comove sempre, Annie Lebovitz, Cindy Sherman… acho que temos grandes mulheres na história da fotografia.

CA – Quais os desafios de ser uma fotógrafa mulher?

CM – Enfrentar um mercado ainda muito machista e dominado por homens, perder trabalhos porque você não é um cara e só por isso deduzem que não vai dar conta de fazer. Ainda parece normal ser mais bem sucedida se você for gostosa, se der mole, se o cara que detém o poder conseguir o que quer. Ainda é preciso engrossar o trato para ir mais longe.

CA – Qual equipamento você usa para fotografar?

CM – Uma nikon D90 e umas 3 ou 4 lentes.

CA – Você já teve alguma publicação de destaque ou recebeu algum prêmio?

CM – Escrevi por 3 anos para o blog do Paraty em Foco, fazendo a cobertura oficial do evento com textos, críticas e análises dos acontecimentos. Esse ano tive 3 fotos expostas durante um festival de fotografia na RedBull Station, de uma pesquisa chamada Ensaios Sobre Butô. Estou começando a criar coragem pAra me inscrever nesses editais e premiações.

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Caroline Moraes? Dá uma olhada nos links abaixo.

Portfólio: Caroline Moraes Fotografia

Instagram: @carolemoraes

Facebook Page: http://www.facebook.com/carol.rmoraes

Entrevista | Sharks’ Teeth

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Sharks’s Teeth é uma banda de New Orleans composta por Tyler Scurlock, Devin Hildebrand, Shelby Grosz e Emily Hafner. Lançado em setembro deste ano, o álbum It Transfers & Grows é um mergulho cósmico.

Confira abaixo a entrevista eu fiz com a banda!

Camila Ayouch – O que cada um faz na banda?

Tyler Scurlock – Eu escrevo as bases e as letras para a maioria das canções. Eu canto nas músicas e nos shows ao vivo, onde eu toco basicamente o módulo DSI Mopho & Roland JP-08.

Emily Hafner – Eu faço um pouco de tudo. Eu toco baixo, lead line, ou faço algum um pouco de som ambiente dependendo da música. Eu e o Devin normalmente alternamos entre o Novation MiniNova e o Korg MS-2000.

Shelby Grosz – Eu normalmente faço a estrutura harmônica das músicas, como as progressões de acordes, com vários acentos em frases, usando a varredura do poly-synth da Yamaha SK-20.

Devin Hildebrand – Eu faço os elementos de percussão para os shows ao vivo e nos discos. Quando tocarmos ao vivo, eu uso o Korg MS2000b para qualquer coisa, desde arpejos a ondas, e o vocoder no Mininova.

CA- Como vocês se conheceram?

TS – Quando eu era calouro na Universidade de Loyola, fui designado para o dormitório ao lado do quarto do Devin. Eu o convenci/forcei a tocar um solo de guitarra, embora ele continuasse dizendo que era mais um baterista [do que um guitarrista] na música que eu estava gravando.

Eu conheci o Shelby através de um amigo mútuo na música, em um show em Lafayette. Depois de tocar em bandas periféricas por anos e ver o quanto Shelby poderia destruir no teclado, não tivemos escolha senão convidá-lo para participar.

Emily e eu nos conhecemos na faculdade também. Há alguns anos atrás, no fim da noite em uma Casa de Natal, nós ligamos os sintetizadores e Emily se juntou ao Shelby para liderar o coro bêbado através das canções de Natal mais espaçadas que eu já ouvi.

CA – Há quanto tempo vocês estão na estrada?

TS – O Sharks’ Teeth não faz tours frequentemente. Às vezes nós viajamos durante uma semana ou tocamos em alguns festivais regionais. O Shelby está em uma banda chamada Trampoline, que faz tours prolificamente, e a Emily vai se juntar a um belo projeto de Nova Orleans chamado Treadles, que fará sua primeira turnê em janeiro deste ano.

CA- De onde surgiu o nome da banda?

TS – Sharks’ Teeth vem de um poema homônimo de Kay Ryan.

CA- Como vocês descreveriam o tipo de música do Sharks’ Teeth para quem nunca ouviu?

TS – Minha descrição favorita, que eu ouvi recentemente, é “pop orgânico mutante”. Algo como um monte de almofadas etéreas, cordas e varreduras sobre batidas sedutoras de dança, cobertas por letras tristes. Embora tenhamos usado sintetizadores, módulos de sintetizador e drum machines exclusivamente para o nosso último álbum, as músicas seguem um formato pop familiar, apenas de muito longe.

Leia também – Sharks’ Teeth e o synthpop mutante.

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CA- Quais são suas referências musicais?

TS – John Maus, Oppenheimer Analysis, New Order, Yo La Tengo, Bjork.

SG – Devo, Human League, Kate Bush, Gary Numan, Angelo Badalamenti.

EH – Elliott Smith, Grouper, Cocteau Twins, Sufjan Stevens, Ryuichi Sakamoto.

DH – Tobacco, Black Moth Super Rainbow, Fennesz, Talking Heads.

CA- Como surgiu seu interesse pela música?

TS – Eu comecei a tocar música na escola primária e desde então foi a maneira mais divertida, fascinante e gratificante de passar o tempo.

EH – Eu comecei a tocar piano clássico quando eu tinha 5 anos de idade. Continuei com as aulas até a faculdade antes de ficar um pouco cansada dele. Ao longo do caminho, eu aprendi peças em outros gêneros por diversão e foi o que manteve a centelha viva. Eu ainda gosto de tocar música clássica de vez em quando, mas também gostei de me divertir nessas ramificações de um estilo tão restritivo de aprender e tocar música.

CA- Como é o processo de composição?

TS – Normalmente eu trago uma fundação de acordes, batidas e letras para o grupo. Devin vai então inventar algo com sua magia digital e que se transformará na nova base de percussão.

Todo mundo dá sugestões de como a canção poderia ser melhor ou como lidar com transições, e as novas partes vão sendo escritas em conjunto.

Por último, a Emily e o Shelby adicionam suas partes ao conteúdo, já que eles são os únicos que têm ideia do que está acontecendo. Então eles voltam e gravamos tudo juntos.

CA- Vocês parecem ser muito bem humorados. Em sua página oficial no Facebook, cada integrante tem um nome divertido. Vocês poderiam comentar isso, por favor?

TS – A reprodução mecânica de cada conta no Facebook, pessoal ou musical, é uma coisa estranha. Eu sinto que nas mídias sociais, algo criado para nos tornar mais homogêneos, você pode subverter isso com a arte e se divertir mais com elas. Enquanto, eventualmente e esperançosamente, de alguma forma, mostre a outras pessoas que elas também podem fazer o que quiserem.

CA- O que é “Christmas in Space” (“Natal no Espaço”)?

TS – Por volta de 2010, eu fiz um show num pequeno bar usando uma guitarra curvada, sobre alguns sintetizadores de ambiente, mas com o coro soando como loops de fita. O local tinha algumas luz de Natal espalhadas por todo o palco. Entre os sons e a decoração, a única maneira de descrever seria “Natal no espaço”. Desde então, essa atmosfera tem influenciado o tipo de acordes ou tons nós tocamos.

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CA – Vocês lançaram 16 álbuns nos últimos 7 anos, de diferentes tamanhos e até mesmo estilo. De onde vem tanta criatividade?

TS – A criatividade vem de estar próximo a tantas pessoas criativas fazendo tanta música incrível, como aqui em Nova Orleans. A quantidade tem mais a ver com a falta de filtro. Muito do que o Sharks’ Teeth lançou nos últimos 7 anos não tem qualquer padrão profissional ou foi analisado o que teria sido melhor fazer.

Eu tinha o equipamento para fazer a música e um lugar para colocar (BandCamp), então fazer o upload regularmente e manter a produção era fácil, ainda mais com projetos pequenos e não muito pensados.

Entre escrever, ensaiar, reescrever, gravar, divulgar e distribuir, It Transfers & Grows foi um projeto que nós trabalhamos por cerca de 2 anos. O resultado é algo mais polido, mas não teria sido possível sem todo esse tempo e colaboração.

Os anos em que o Sharks’ Teeth estava lançando um álbum ou EP por mês foi quando eu estava pulando basicamente todos os passos que fazem It Transfers & Grows o que ele é.

CA- O álbum It Transfers & Grows parece mais maduro artisticamente em relação aos outros. Como foi o processo de criação do disco?

TS – Isto se relaciona diretamente com a última pergunta sobre a prolificidade. A maioria do catálogo antigo foi gravado essencialmente por mim. Quando começamos a gravar It Transfers & Grows, o Sharks’ Teeth vinha se apresentando junto com os quatro integrantes. A cada ensaio ou show, cada membro foi desenvolvendo o que eventualmente acabaria sendo o disco.

A Emily e o Shelby são ambos talentosos e capazes nos sintetizadores. Quando chegou a hora de gravar, eles contribuíram com alguns dos momentos mais memoráveis do disco. Devin foi responsável pela gravação, mixagem e masterização do álbum inteiro e suas habilidades loucas são o que torna o registro tão coeso.

CA – Quais são as expectativas para este álbum?

TS – Quando estávamos trabalhando nisso, eu acho que minhas expectativas eram de que as pessoas compartilhassem a afinidade pela música física e que os equipamentos fossem atraídos para isso.

Agora que o disco já foi lançado faz algum tempo, eu estou surpreso. Nunca achei que fosse estar tão orgulhoso de algo em que eu trabalhei por tanto tempo.

Durante a maior parte da minha vida eu tenho me desapontado cronicamente com projetos, mas trabalhando no ITAG, colaborando com os novos membros para ensaiar para shows que ainda estamos tocando… Eu estou muito feliz de estar continuamente orgulhoso do trabalho que todos nós colocamos neste disco e que realmente foi além das minhas expectativas.

CA- Vocês já vieram ao Brasil?

TS – Nós nunca estivemos no Brasil, mas ADORARÍAMOS ir.

CA- Indique algo para os nossos leitores.

TS – O livro do Walker Percy,”Lost in the Cosmos”,  foi uma grande influência na criação de It Transfers & Grows; e também é muito engraçado.

EH: Se você estiver procurando por alguma arte inspiradora, dê uma olhada em Yuko Shimizu (não o da Hello Kitty; o outro)! Ela é uma ilustradora japonesa baseada em Nova York, e todo seu trabalho é imaginativo e bonito. Ela faz trabalha muito com tinta e escova, e sua arte combina influências tradicionais e modernas sem problemas.

Curtiu a entrevista do Sharks’ Teeth? Clique aqui para ouvir o som deles.

Entre Serviço e Simpatia, com Castello Branco

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Para tentar desvendar um pouco desse ser de intensidade quixotesca, entrevistei o cantor, compositor e escritor Castello Branco.

Camila Ayouch – Muitas pessoas te conhecem da R.Sigma. Como foi a transição de um projeto coletivo para um disco solo?

Castello Branco – O processo coletivo nunca saiu de mim. Sou um ser do coletivo. Mesmo quando trago para o pessoal, como acontece com o projeto solo, ainda sim não deixo faltar o coletivo nas coisas.

CA- Um de seus poemas no livro Simpatia diz: “sem atrito não há lapidação”. Quais foram as intempéries que você teve que enfrentar para se estabelecer como artista?

CB – Nossa (risos)! São muitos os traumas que ainda vivo e atritos que tive. Não seria capaz de formatá-los em texto. O que posso dizer é que existem dois tipos de confronto, o externo, onde outros lhe trazem o atrito, e o interno, onde você é quem “tatua” a si mesmo. Ambos são positivos, quando a motivação é honesta enquanto amorosa.

Leia também – Simpatia, de Castello Branco.

CA – Você cresceu em um monastério ecumênico. Como isso influencia sua conduta enquanto artista e seu processo criativo?

CB – Não consigo criar algo sem pensar nos outros. Isso não quer dizer que seja bom.

CA – Quais são as suas referências literárias e musicais?

CB – Meus amigos e alguns seres gigantes que fui encontrando no caminho. Posso citar alguns como Pãma, Trigueirinho, Lôu Caldeira, André Dahmer, Ana Lomelino, Gabriel Bittencourt, Eduarda Bittencourt, Tomás Tróia, Rafaela Cardeal e por aí vai…

CA – “Permitir é um gesto sagrado”. Comente este poema, por favor.

CB – O ato de permitir é uma das coisas mais poderosas que podemos manifestar.

CA – Recentemente você completou 30 anos. O que a idade te trouxe como presente?

CB – Saber viver mais esse presente.

CA- Indique algo para os nossos leitores.

CB – Feijão, por cima uma camadinha de farinha, depois alguns fios de azeite e por último umas pitadinhas de sal. FICA UMA DELÍCIA!