Resenha | O Negative, de Steven McCarthy

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No banco de trás de um carro, uma jovem mulher (Alyx Melone) parece agonizar. Ao volante, um homem (Steven McCarthy) dirige determinado em encontrar abrigo. Apesar de assustado, ele parece saber o que fazer. Isso já aconteceu antes.

Em um motel à beira da estrada, ele drena seu sangue para o corpo dela. Esse relacionamento incerto, permeado por desejos intensos, aponta uma interdependência: ele não vive sem o próprio sangue, ela não vive sem o sangue alheio.

As personagens parecem estar presas em um presente perpétuo: é preciso alimentar constantemente o vício. O agora só é suficiente até deixar de ser. Cada agulha é uma injeção de vitalidade nos seus termos.

A interação verbal é sempre reveladora. O que dizer, então, quando as cartas já estão postas à mesa? Nesse sentido, a quase completa ausência de diálogo no curta-metragem é acurada.

A trilha sonora, por sua vez, é uma impossibilidade; não haveria como ser outra. Composta por Gordon Hyland e Sam McLellan, ela é capaz de tensionar ainda mais os silêncios, reforçando a atmosfera vampiresca da narrativa.

O Negative é um fragmento de compulsão e sua sede por sangue pode deixá-lo seco.

  • Ficha Técnica

Título: O Negative.

Ano: 2015.

Duração: 15 minutos.

Idioma: Inglês.

Gênero: Drama.

Classificação: 18+.

Diretor: Steven McCarthy.

Roteiro: Steven McCarthy.

Atores: Alyx Melone, Steven McCarthy and Sandra Forsell.

País: Canadá.

Cor: Cor.

 

 

Pasaje de Vida, um filme sobre feridas abertas

Pasaje de vida

Inspirado na história dos pais de Diego Corsini, diretor do longa-metragem, o filme argentino revive as agruras do casal de montoneros e a inevitabilidade da luta durante os anos 70. O drama familiar não é alheio, manifestando-se na figura do filho de identidade fragmentária.

Sinopse

Mario (Javier Godino) deve visitar urgentemente Miguel (Miguel Ángel Solá), seu pai, hospitalizado por uma doença neuronal grave. Enclausurado no passado, Miguel já não consegue diferenciar o presente de suas memórias. Sua obsessão em encontrar uma mulher chamada Diana impulsiona Mario a investigar a misteriosa e complexa história de seu pai.

La mala hora

O livro de Gabriel García Márquez é um dos objetos metodicamente organizados sobre a mesa de Miguel. Não há boa hora para adversidades, não há boa hora para a morte. A dualidade entre memória e esquecimento, passado e presente, são como codinomes: basta uma palavra para alienar-se de si.

Quando as feridas abertas deixadas pela ditadura militar voltam a sangrar, parece inevitável aliar o entusiasmo pela militância ao temor prolongado, uma espécie de claustrofobia de lembranças. Os traumas reais não se transformam em simples alegorias; representam um geração que descobriu que o caminho para a liberdade é cheio de restrições.

A forma como suas aspirações políticas foram ou não concretizadas é secundária. O que resta é o melancólico fardo da sanidade.

La sangre derramada no será negociada

É simbólico como a frase imortalizada por Rodolfo Ortega Peña tenha sido pichada justamente por Diana no filme. Filho de uma família antiperonista, foi advogado de presos políticos e trabalhadores em luta. Era deputado nacional, próximo à esquerda peronista, quando foi assassinado em 1974 pela Triple A (Alianza Anticomunista Argentina).

Em uma tentativa desesperada em negar suas origens burguesas, Diana opta por trabalhar em um fábrica e militar contra às condições precárias impostas aos operários. O recorte de classe é feito sutilmente, quando ela afirma que seu compromisso com a classe trabalhadora é uma escolha. Neste ponto, sua fala parece ensaiada, como se extraída de leituras básicas marxistas.

Já Miguel não está próximo ou comprometido com a classe trabalhadora por opção, ele faz parte da classe trabalhadora. Trabalha porque precisa, milita porque é necessário. Abafado pelo caráter chistoso, o conflito ideológico entre Miguel e Diana fica claro no seguinte diálogo:

– Espero que não seja um daqueles pseudointelectuais que não querem sujar as mãos.

– Espero que não seja uma daquelas pequenas burguesas que querem acalmar sua consciência com armas.

Lo que perdimos con la política, no lo vamos a ganar con las armas

A princípio um salto demasiadamente brusco na narrativa, a luta armada é inserida como algo naturalizado entre os ativistas políticos, como uma progressão genuína da ideologia e militância de base. Não é à toa que, graças ao fechamento da via política, os militantes encontrem a clandestinidade como consequência.

  • Trailer
  • Ficha Técnica

Título: Pasaje de Vida.

Direção: Diego Corsini.

Ano: 2015.

País: Espanha, Argentina.

Duração: 111 minutos.

Gênero: Drama, thriller político.

Idioma: Espanhol.