Série Mulheres Árabes | # 27 Valia Abou Alfadel

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita no Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Valia Abou Alfadel é uma artista visual com formação em Belas Artes. Nascida em Damasco (Síria), ela atualmente reside em Dubai, Emirados Árabes Unidos.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Valia Abou Alfadel – Cada pessoa tem uma mensagem e uma razão para estar neste mundo. Minha mensagem é Amor, uma espécie de missiva enviada à Humanidade. E para escrever uma palavra ou uma linha nesta missiva, tenho que estar em um lugar inspirador onde eu possa juntar todas as minhas memórias e esperanças … e este lugar é o meu estúdio.

O estúdio me ajuda a liberar minhas cores como para expressar muitas emoções, é meu próprio mundo especial onde minha alma descansa e encontra uma bela maneira de revelar meu verdadeiro eu.

Obviamente, minha presença em qualquer lugar expressando a beleza da Arte, como uma galeria ou estúdio de outro artista, pode me inspirar também, e me oferece sentimentos positivos e emoções.

CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

VA – No meu estúdio há uma espécie de desordem organizada; geralmente estou organizada, mas quando começo a desenhar não me posso preocupar mais em cuidar da organização: adoro ver os meus lápis totalmente livres.

Meu estúdio atual é uma parte de minha casa particular. Eu tentei criá-lo perto de minha família, não só para mim, mas também para os membros da minha família, para ter um lugar para a contemplação e evasão. A maioria dos meus filhos e também o pai deles são artistas também, aqui estou entre eles, e enquanto isso eu posso reintegrar meu próprio mundo a qualquer hora que eu quiser.

CH – Você ouve música em seu estúdio? Você trabalha melhor com alguma música tocando ou necessita de silêncio completo quando está em seu ápice criativo?

VA – A música é uma parte de meus materiais, como meus lápis e as cores. Cada pintura obtém uma história musical que depende do tempo e meu estado de espírito quando a obra de arte foi realizada. A música é a minha companheira e a mensageira das minhas emoções para as minhas pinturas.

CH – Sobre o que é a sua arte?

VA – Como eu disse antes, o amor é a minha mensagem. Amor como um valor básico e instinto do ser humano antes da poluição das sociedades. É a verdadeira beleza e a prova da existência da vida. Quem pode parar na frente de uma de minhas pinturas pode sentir meu amor, e isto é o que minha mensagem é toda sobre.

CH – Ser artista é um trabalho difícil. Você tem algumas dúvidas e grandes lutas/esforços?

VA – Tenho muita sorte de que Deus me deu esse talento e esta capacidade de pintura que me leva a um estado de espírito calmo e pacífico.

CH – O que te inspira?

VA – Talvez essa tristeza profunda que aparece nos detalhes dos heróis da minha pintura. Eu não odeio essa tristeza; eu até gosto, porque qualquer expressão deve sair de uma ferida interna real para ser a base da criação.

CH – Você alguma vez se arrependeu de ter se tornado artista? De onde sua energia vem?

VA – Eu acho que um artista é mais sensível e influenciável do que as outras pessoas, embora essa qualidade possa conter uma dificuldade na vida cotidiana. Todas as circunstâncias empurram um artista para expressar suas emoções. Cada artista tem diferentes fontes de inspiração e criação, o meu é uma tristeza profunda, e no entanto estou feliz em expressá-lo na minha arte.

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

VA – Nunca vejo um limite à minha ambição. Sinto-me sempre cheia de novas ideias e novos sentimentos para oferecer através da arte.

CH – O conflito na Síria, que está acontecendo há alguns anos, teve um impacto sobre o elemento central da sua arte? O que mudou?

VA – Síria, minha pátria e meu grande amor está vivendo questões tão dolorosas, e eu tento compartilhar essa dor, que também impacta involuntariamente minhas cores. Minhas últimas obras são chamadas “Damasco” e “Aleppo” e estão entre minhas melhores obras de arte, e entre as mais próximas à minha alma.

CH – Você está vivendo fora da Síria. Como o lugar onde você está vivendo mudou sua arte?

VA – Eu estou vivendo nos Emirados Árabes Unidos, é o meu segundo país, que é um belo [país] me dando energia para trabalhar e me tornar distinta. Mas a Síria continua a ser o lugar mais bonito na terra com a sua natureza maravilhosa. Um artista tem essa grande capacidade de integrar qualquer lugar que ele queira porque a criação é seu primeiro alvo.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

VA – Não há limites para os meus sonhos. Espero que minha arte seja compreendida e que toque mais pessoas para atrair felicidade para suas almas. Espero que minha mensagem de Beleza e Amor seja liberada. O amor é emoção, nostalgia, cor, movimento… é uma purificação espiritual e uma razão para estar vivo, e a única maneira de fazer deste mundo um lugar melhor.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s