Série Mulheres Árabes | # 24 Noor Bahjat

Noor Bahjat.

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita pelo Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Noor Bahjat Almassri, graduou-se no topo de sua turma da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco. Primeira artista jovem em residência na Galeria Ayyam. Nascida na capital da Síria, vive e trabalha em Dubai, Emirados Árabes Unidos.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Noor Bahjat – O estúdio é o lugar onde eu posso me isolar e tomar distância de tudo, exceto de mim. É um espaço no qual posso confessar muitos dos meus sentimentos e me libertar da turbulência emocional – e também onde meu coração pode desejar algo mais profundo do que minhas experiências diárias.

Trabalhar no meu estúdio é uma maneira de expressar os impactos do que está acontecendo ao meu redor e do que me afeta – e dentro desse microcosmo para transcrever minha experiência de vida em uma perspectiva única, em linhas e cores.

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CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

NB – Para ser honesta, eu não sou muito organizada, e às vezes eu quase me perco no estúdio. Mas quando a desordem se torna demasiadamente esmagadora, eu trago a ordem e, de tempos em tempos, até encontro algumas obras antigas ou ferramentas que eu tinha perdido, e então é como uma chance de começar de novo, de fortalecer e reestruturar minhas idéias para algumas obras de arte futuras.

As ideias e a maneira de ver a vida mudam à medida que o tempo passa, mas mudar de lugar de trabalho, por exemplo, obviamente tem uma grande influência tanto nas ideias como na qualidade do trabalho. Quando o estúdio de um artista é transferido para outro local, a atmosfera e as instalações mudam, e assim também, direta ou indiretamente, o processo artístico e produtividade, bem como os resultados.

CH – Você ouve música em seu estúdio? Você trabalha melhor com alguma música tocando ou necessita de silêncio completo quando está em seu ápice criativo?

NB – A música é essencial para mim. Eu sempre ouço música enquanto trabalho. A música é importante para a minha rotina diária e fluxo, porque me ajuda a ritmar meu trabalho e me manter focada. O que aconteceu ao longo do tempo é que, com a música certa, posso literalmente transportar-me para um lugar de alta emotividade e criatividade toda vez – tudo o que preciso é a música para me levar a esse lugar literal no centro das minhas pinturas e as coisas começam a disparar em criação.

A música move minha alma e está enraizada no princípio do trabalho e do prazer – quando os dois são combinados crio algo totalmente diferente. A música permite que essa dinâmica ocorra e é por isso que a uso, com abandono, no meu ciclo de trabalho e criatividade. O único momento em que há silêncio em meu estúdio é quando a música pára de tocar e eu não prestei atenção, porque voltada para dentro e concentrada em meu trabalho.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

NB – O processo é bastante simples: coloco a tela diante de mim e a deixo me transportar para dentro dela, me entrego a ela e aguardo até que me leve aonde quiser. Geralmente, começo desenhando alguns retratos, e depois retiro algumas figuras e acrescento outras. Continuo assim até chegar a um estágio onde a pintura se comunica o suficiente comigo e expressa meus sentimentos. Eu tento ficar satisfeita no final olhando para as obras de arte como um espectador faria em uma exposição, um espectador que pára e olha profundamente em uma pintura expressiva.

CH – Sobre o que é a sua arte?

NB – Minha arte expressa o que ocupa minha mente e alimenta minha alma – como qualquer outro artista que tenta expressar suas emoções através de uma mídia que ele ama.

Cada pessoa tem sua própria maneira subjetiva de se aproximar e apreciar uma obra de arte ou uma pintura, e essa é a coisa mágica sobre a arte: enquanto o processo criativo pertence ao artista, emoções e reações pertencem ao espectador.

Nunca dou um título às minhas pinturas, pois não quero limitar outras ou colocar limites – a minha arte pretende dar espaço à imaginação e emoções livres dependendo da experiência de vida de cada um. Além disso, acho difícil e restritivo dar nomes a emoções, sonhos e experiências que posso expressar através de minhas pinturas.

CH – O que te inspira?

NB – Qualquer coisa bonita nesta vida que possa iluminar a inspiração em mim, qualquer coisa de substância, e qualquer coisa que provoque a reflexão: uma visão, uma foto ou mesmo uma conversa …

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

NB – A satisfação é uma questão muito relativa; ela muda de acordo com o trabalho e o período de tempo. Há muitas das minhas pinturas que eu realmente amo e que me dão uma sensação de plena satisfação, enquanto isso há algumas outras para as quais ainda tenho algumas dúvidas.

Naturalmente, enquanto uma obra de arte recente explica mais sobre o meu “eu” atual, uma vez que contém a minha marca presente e um pedaço da minha vida no fundo, algumas das minhas obras mais antigas parecem ser menos satisfatório para mim hoje em dia. Isso pode provar a minha evolução pessoal e artística. No final cada obra recebe uma personalidade distinta e enfatiza a expressão artística humana dentro de um período específico de tempo e experiência de vida.

CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

NB – Obviamente, o lugar onde um artista vive tem uma grande influência no seu trabalho e em múltiplos níveis: a atmosfera, o ambiente, as pessoas e a vida cotidiana – todos estes fatores contribuem para a evolução da personalidade de um artista e o processo criativo.

Minha presença em Dubai mudou minha maneira de ver a arte em geral e mais especificamente o meu próprio trabalho. Tive a oportunidade de encontrar muitos grandes artistas sírios e internacionais, e isso participou sem dúvida da minha evolução como jovem artista. Intrinsecamente, cada sociedade pode ser capaz de construir algumas fronteiras e muros, e libertar-se de outras sociedades, mas o caráter cultural específico de cada país influencia a experiência pessoal do artista e, portanto, seu impulso artístico.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

NB – Meu sonho é ser capaz de expressar minhas ideias e meus sentimentos de forma acadêmica e artística, tornando mais fácil tocar os outros e liberar emoções vibrantes.

Como uma artista síria, meu sonho é que o resto do mundo abra seus olhos e considere o povo sírio de uma maneira diferente – não como um povo sofrendo e disperso pela guerra, mas que veja os sírios como eles realmente são: educados e criativos, capazes de ser bem sucedidos em todos os campos e em qualquer lugar.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

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