Entrevista | Ju Choma

Ju Choma.

A cenografia abrange todos os elementos responsáveis por criar uma determinada atmosfera em uma apresentação: as luzes, os sons, a disposição dos elementos… Quando em harmonia, são capazes de suscitar emoções das mais diversas e cativar o público.

No entanto, a cenografia é frequentemente privada dos holofotes. Em busca de valorizar essa forma de arte, a nossa colunista Camila Ayouch entrevistou a cenógrafa curitibana Ju Choma, 28, uma força a ser reconhecida na área. Confira o bate-papo abaixo!

Camila Ayouch – Quando e por que você optou por Arquitetura?

Juliana Choma – Eu sempre fui uma pessoa bem indecisa. Eu gosto de muitas coisas e às vezes isso é um problema quando a gente tem que se decidir. No início eu queria fazer Cinema, mas na época não existia graduação nessa área aqui em Curitiba, então não era uma opção.

Cheguei à Arquitetura porque meus pais são engenheiros civis e desde pequena eu convivi com a construção, me identificando de alguma forma. Ao mesmo tempo, eu queria algo mais artístico e, nesse sentido, a Engenharia me parecia um pouco fria – cursei um ano antes de migrar para a Arquitetura. Cheguei a cogitar Design, mas a Arquitetura pareceu um bom jeito de unir o artístico ao funcional.

CA – Como foi a transição para a cenografia?

JC – Quando cheguei à conclusão de que queria Arquitetura, já me imaginava trabalhando com paisagismo ou arquitetura de interiores, e tinha deixado de lado a ideia do audiovisual. Eu não imaginava que um arquiteto poderia ser cenógrafo, porque infelizmente pouco se fala de cenografia, mas tudo mudou no meu primeiro ano de faculdade.

Em uma aula de Introdução à Arquitetura, com o professor Antônio Castelnou Neto, ele disse que um dos ramos da Arquitetura é a Cenografia. A partir daí, fiquei pensando que eu poderia, sim, voltar a pensar no audiovisual e em outras vertentes.

Nos anos seguintes, fiquei dividida entre seguir carreira no Paisagismo ou na Cenografia. Assisti a muitas palestras, fiz vários workshops e me inscrevi na disciplina de Cenografia do curso de Produção Cênica. Afinal, para seguir em uma área que não é tão convencional a gente tem que se informar bem, não é?

Show “Minhas Digitais”, de Luciane Merlin. (Cenografia: Ju Choma | Foto: Uriel Marques)

No último ano da faculdade, eu trabalhava em um escritório de Paisagismo, mas as coisas não iam como eu imaginava. Quando saí de lá, minha chefe me forneceu o contato de dois ou três diretores de cinema, e me incentivou a mandar e-mail para eles. Sinceramente, não achei que fossem me chamar, eu não tinha experiência alguma.

Mas o Alessandro Yamada – que também é arquiteto – estava para começar a rodar um filme, e sua diretora de arte, Suzana Aragão, precisava de ajuda. Fui chamada logo para começar um longa-metragem, e amei a experiência! Agradeço muito a oportunidade que os dois me deram nesse início, porque se isso não tivesse acontecido talvez eu estivesse hoje fechada em um escritório de Arquitetura.

Depois disso foi estudar bastante. Fiz a Especialização em Cenografia da UTFPR, e muitos cursos em áreas diferentes, como iluminação, carpintaria e eventos, porque acho que o cenógrafo tem que ter uma visão muito ampla de tudo que envolve a Cenografia.

CA – Qual é a sua identidade como cenógrafa?

JC – No começo, eu queria ter alguma coisa que pudesse falar: “isso sou eu”. Parece que existe até uma exigência de que o artista tenha uma identidade que o torne único, mas depois a gente aprende que não importa muito qual é a sua assinatura, desde que o cliente fique satisfeito com o seu trabalho.

Não sei se posso chamar isso de identidade, mas procuro fazer com que cada projeto traduza o íntimo dos meus clientes. Isso faz com que os meus projetos sejam bem diferentes: posso fazer um cenário muito rústico, ou então bem minimalista; um cenário delicado, e outro completamente confuso. E não me importo muito se vão identificar que é meu ou não. Se isso traduz o cliente, se ele está feliz, eu também estou.

Talvez eu tenha algo só meu, mas não sei dizer. Me dedico muito a cada cliente, procuro entender como é a sua personalidade e traduzo isso em formas. Me disseram esses dias que o meu diferencial é que eu mesma produzo meus cenários, coloco a mão na massa. Pode ser isso, mas não sei.

Show Fran Rosas: Brilhante – Especial Elis Regina. (Cenografia: Ju Choma | Fotografia: Fabio Palombino)

CA – Quais são suas referências estéticas?

JC – Dizem que o primeiro arquiteto que você estuda na faculdade vira sua referência para a vida. Não sei se isso se aplica a todos os estudantes, mas estudei o Frank Lloyd Wright no primeiro ano e ainda hoje ele é meu arquiteto favorito. Talvez tenha sido com ele que aprendi que cada obra é destinada a seu cliente, e que você pode ter vários estilos diferentes. Como movimentos artísticos, gosto muito do minimalismo e da land art.

CA – Como você avalia a relação da cenografia com cada projeto?

JC – Vejo muita relação entre a Arquitetura e Cenografia. No fundo, o objetivo é o mesmo, o que muda é a escala e o tempo de existência da obra. Você vai querer fazer algo artístico, que cause impacto, mas ao mesmo tempo não pode deixar de ser funcional e servir ao seu propósito. A gente estuda, na Arquitetura, a tríade vitruviana: um projeto tem que ser funcional, bem estruturado e causar comoção. É isso que a gente busca na Cenografia também.

Festival Gastronômico Mia Cara Curitiba. (Cenografia: Ju Choma | Fotografia: Daniel Sorrentino)

CA – Como nasce um projeto cenográfico?

JC – Eu crio meus projetos de cenografia com a mesma metodologia que usava já na arquitetura. Primeiro tenho uma conversa inicial com o cliente, para entender o que ele precisa – geralmente, ele me dá aspectos mais funcionais e, vez ou outra, algum elemento estético que gostaria.

Depois, procuro entender como é a personalidade dele: no caso de cantores, por exemplo, procuro seus vídeos e ouço o máximo de músicas gravadas que ele tem, além de ir a ensaios, para compreender seu estilo.

Pergunto se existe uma atmosfera que ele gostaria de passar em seu show, e se ele não souber, o ensaio me ajuda a entender isso também. A partir disso, é pesquisar referências (sempre mostrando ao cliente para ver se estamos pensando da mesma forma) e desenhar muito para oferecer várias opções para ele.

CA –  Em seu portfólio vemos que você trabalha com vários artistas locais. Como fazer mais com menos?

JC – Eu gosto de trabalhar com os artistas locais, porque isso fortalece a classe e precisamos incentivar pessoas que são como nós, não é? Mas a gente tem que levar em consideração que, na maioria das vezes, são artistas em começo de carreira e não têm orçamento.

É um trabalho de colaboração: encontrar amigos que emprestem móveis, lojas que façam parcerias, reformar partes de algum cenário que eu tenha sobrando para usar no show… No final é muito gratificante ver que tudo dá certo, mesmo com o orçamento apertado. Não recuso esse tipo de trabalho, porque se a gente quer crescer temos que ajudar os outros a crescerem também.

Image may contain: outdoor
Festival Gastronomix. (Cenografia: Ju Choma)

CA – Qual é o projeto que você mais se orgulha? Por quê?

JC – A cada época eu tenho o meu favorito. Atualmente tenho dois que me orgulho de ter feito: o primeiro é a cenografia para o Gastronomix (2016), que é a feira gastronômica do Festival de Teatro de Curitiba. Fiquei muito feliz de ter feito e foi incrível como as pessoas gostaram do projeto. Planejei alguns elementos interativos, mas não esperava que as crianças fossem aproveitar tanto. No fim, elas até inventaram interação onde eu não esperava, e esse é o aspecto que mais gosto na cenografia: a reação a ela ser imprevisível.

O segundo trabalho que gostaria de citar é o show do Ravi Brasileiro, no Teatro Paiol, em que assinei a direção de arte. Foi um desses projetos com um artista local, de baixo orçamento, mas que deu muito certo: conseguimos algumas parcerias, muita coisa foi feita por nós mesmos, e o resultado foi um show lindo.

(Show Ravi Brasileiro: Cortinas Abertas (Cenografia: Ju Choma | Foto: Brasileiro Produções

CA – Você tem alguma dica para quem quer trabalhar com cenografia?

JC – Não se preocupe tanto em estudar a cenografia em si. Estude história do teatro; estude cinema. Teoria da cor, da forma. Estude luz; materiais. No final, a cenografia é composta de tudo isso. E quanto mais a gente estuda cada elemento separadamente, mais fácil é criar os cenários.

CA – Indique algo para nossos leitores.

JC – Um filme: O Grande Hotel Budapeste.
Um artista: Bruce Munro.
Uma cenografia: a de Daniela Thomas para Avenida Dropsie (2005).
Um lugar: Jardim Botânico de São Paulo.

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Ju Choma? Dá uma olhada nos links abaixo.

Site: www.juchoma.com

Facebook Page: www.facebook.com/juchomacenografia

Pinterest: https://br.pinterest.com/juhchoma/

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