Resenha | Boquitas Pintadas, de Manuel Puig

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Créditos da imagem: Juan Martín Serrovalle.

Boquitas Pintadas (1969) é o segundo romance do escritor argentino Manuel Puig. Desdobra-se através das relações amorosas de Juan Carlos Etchepare, um galã marcado pela tuberculose com Mabel, uma professora; Nené, uma funcionária do mercado; e Elsa, uma viúva.

Ambientado em uma província de Buenos Aires, entre os anos de 1934 e 1947, o livro aborda o convencionalismo de um universo pequeno burguês. O título faz referência ao famoso foxtrote da dupla Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.

  • Estrutura

O livro é composto por 16 capítulos e dividido em duas partes – Boquitas pintadas de rojo carmesíBoquitas azules, violáceas, negras – em que o  viés melodramático é fio condutor.

A história é contada de  forma de cronologicamente desordenada. A cada capítulo é preciso se reorientar através de cartas, registros ou recortes de jornais.

Esta mecânica narrativa provoca um estranhamento contínuo, forçando-nos a despertar nossa capacidade perceptiva diante do novo ou do já conhecido, mas transmutado.

  • Enredo

Através de uma estrutura voltada ao interesse anedótico, Manuel Puig constrói um enredo cafona, que faz jus à emotividade insensata característica dos folhetins.

As atitudes torpes das personagens revelam uma sociedade completamente enfadonha, dominada por um quadro alienante de opressões e preconceitos, onde os assuntos “proibidos” são sempre tratados  através do ocultamento e da simulação.

  • Estilo

Assim como outros escritores argentinos contemporâneos, Manuel Puig é fortemente influenciado pelo estilo fragmentário. Essa espécie de literatura-colagem, que incorpora elementos epistolares, cinematográficos, jornalísticos e coloquiais é um desafio para o leitor desavisado.

A música desempenha um papel quase sintático em Boquitas Pintadas. Ao usar letras de tangos e canções populares, Puig imprime um caráter informativo aos versos, preparando o leitor para um evento.

Já a hiperbolização pode ser vista como um procedimento realista, isto é, verossímil ao universo retratado. As figuras típicas de folhetim surgem em primeiro plano, trazendo a história do crime de maneira subjacente.

A lógica da dupla narrativa me parece particularmente falha em Boquitas Pintadas, de forma que ambas as narrativas acabam obscurecidas. Nesse sentido, reavivo a proposição de Ricardo Piglia em Teses sobre o conto:

Num de seus cadernos de notas, Tchekhov registra esta anedota: “Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se”. A forma clássica do conto está condensada no núcleo desse relato futuro e não escrito.

Contra o previsível e o convencional (jogar-perder-suicidar- se), a intriga se oferece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa cisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.

Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.

O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Um relato visível esconde um relato secreto, narrado de um modo elíptico e fragmentário.

O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.

  • A representação da mulher

O universo de Boquitas Pintadas é extremamente machista. Puig exacerba os estereótipos de gênero, correspondentes à cosmovisão do ambiente provincial e de uma estética particular dos folhetins.

Os discursos frutos do senso comum e a dissimulação são os principais “artifícios de sobrevivência” das personagens femininas, reforçando a ideia de que ser mulher é sinônimo de eterna renúncia.

Suas ações são sempre orientadas por a partir de um outro, tornando a individualidade um desejo distante e muitas vezes tido como equivocado, onde a honra, a vergonha e os pudores são tidos como parâmetros de valoração social.

Para análises mais completas sobre a representação da mulher Boquitas Pintadas, de Manuel Puig, ver Talleres de Lectura de Liliana Costa e o artigo Víctimas del prejuicio: las mujeres em Boquitas Pintadas, de Manuel Puig, de Diego Krasñansky.

A habilidade de tratar do prosaico através de paralelismos, descrições extensas e contextos particulares tem seu mérito. No entanto, dizer sim à todas as formas talvez implique na qualidade geral da obra. Descobrir as camadas de intencionalidade de Puig demanda tempo e paciência; infelizmente, não são todos os leitores que se permitem ser conquistados na releitura.

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